fur from felis

danilo kato's heart
one of them
this one we painted black
 | 30.11.2011


sobre ilustração manual

esses dias eu dei uma entrevista para a edição sobre ilustração da Computer Arts Projects e foi muito legal responder as perguntas e também ver que saí no meio de tantos outros artistas que eu gosto. fiquei feliz! :)


muita coisa foi cortada do texto que eu mandei (eu sei que é foda pra eles também, porque tem que obedecer o limite de caracteres nas pautas e tal), então vou disponibilizar na íntegra aqui pra quem quiser ler.





Como definiria seu estilo?

Uma mistura do clássico com o contemporâneo.



O que o inspira?

Diversas coisas da vida. Não só ver uma arte bonita, mas assistir a um filme marcante, ouvir uma música, conhecer e encontrar pessoas… Muitos acontecimentos, positivos ou negativos, acabam me inspirando.



O que levou a ser adepto do papel e da tinta? Qual sua opinião sobre o digital?

Sempre gostei de desenhar desde pequeno, então foi natural. Mesmo conhecendo o computador, achei que o papel e a tinta eram mais próximos de mim. Criar coisas no computador é legal, mas me encontro melhor fazendo meus desenhos à mão.  Sinto um contato maior com a imagem que estou produzindo, pois eu sinto a textura do papel, o cheiro da tinta, minha mão tocando a superfície do desenho. O que não me faz depreciar o digital, que consegue fazer coisas que na mão não conseguimos fazer, e bem mais rápido. Até gosto de misturar os recursos digitais em desenhos manuais que faço. Mas para fins artísticos, me identifico muito mais com uma obra feita totalmente à mão. É um desafio, pois você não conta com inúmeros layers do Photoshop, comando de desfazer ou 50 versões diferentes de uma mesma imagem.



Como funciona o processo de desenvolvimento de um desenho? Você usa softwares para finalizá-los? Quais?

Normalmente tenho idéias para um desenho nas horas mais inesperadas do dia, por exemplo, enquanto eu fico olhando a paisagem dentro de um carro em movimento, ou enquanto observo as pessoas passando pelo metrô, pelas ruas… Muitas vezes tudo isso enquanto fico pensando na vida. Mas também tiro idéias de muitas coisas que leio, escuto e assisto.

Memorizo a idéia e algumas vezes faço um rascunho no sketchbook, mas é mais freqüente eu ir direto para o papel. Com a imagem na cabeça, vou atrás de referências de fotos e ilustrações de pessoas, plantas e objetos que possam me ajudar na criação. Faço o desenho a lápis bem fraquinho, posiciono os elementos, dou uma olhada de longe pra ver se está bom e quando não está eu apago essas partes e refaço. Só depois passo o nanquim.

Quando é uma ilustração comercial, utilizo o Photoshop para finalizações. Basicamente coloco as cores e faço alguns ajustes no traço. Para obras pessoais, uso o Photoshop apenas para ajustes de níveis de claro e escuro que se perdem um pouco no scanner, ou quando o desenho é muito grande e digitalizo em partes, para depois juntar pelo software. Não é exatamente uma finalização, pois não interfere no desenho original, do papel.



Quanto tempo leva todo procedimento de um de seus desenhos?

Quando faço desenhos grandes (de A3 pra cima) que preenchem todo o papel leva em média um mês. Quando são menores, que têm espaços em branco, cerca de uma semana. Ainda pretendo aumentar mais o tamanho dos papéis e o tempo de criação.



Quais ferramentas e materiais costuma usar em seus trabalhos?

Uso muitos lápis e lapiseiras com vários tons de grafite, canetas nanquim Sakura Pigma e Unipin de várias pontas, aquarela, esfuminho, borracha e régua, mais para fazer o grid do que para fazer linhas retas em si, que não tem muito nos meus desenhos.



Quais artistas o inspiram? Por quê?

Artistas que misturam uma técnica de desenho excelente com histórias. Salvador Dalí contava sobre os seus sonhos nas telas, a Frida Kahlo sobre seus sofrimentos… E coisas muito ricas em detalhes, como Alphonse Mucha, e provocadoras, como René Magritte. Esses são alguns de meus ídolos ocidentais, mas minha queda pelos orientais fala mais alto pelo meu sangue: desde tradicionais como Utamaro e Hokusai, até os contemporâneos, como Fuyuko Matsui, Vania Zouravliov, Aya Kato, Shohei Otomo… Todos muito expressivos e detalhistas.



Há demanda para estilo manual no mercado criativo ou existe uma preferência por digital?

Tudo depende da finalidade. Acho difícil você conseguir sobreviver só com trabalhos estritamente manuais dentro do design gráfico hoje em dia. No mundo das belas artes, isso já caminha mais diferentemente. Você está fazendo para pessoas que procuram isso, ou seja, apreciadores, e não um público final de um projeto de design. Conseguimos, claro, utilizar uma ilustração manual para revistas ou capas de livros, por exemplo. Mas como falei, tudo depende da comunicação que queremos passar. Vejo muitos projetos que aliam o manual com o digital e gera resultados incríveis, que funcionam muito bem e atinge o público, então para ocasiões assim, aproveitar o digital sem precisar largar o papel e a caneta é uma boa alternativa também. O importante é não se fechar em uma coisa só.



Quais as vantagens e desvantagens de um traço manual?

Vantagens: liberdade e controle total sobre a imagem. Ter a certeza de que pode desligar a luz a qualquer momento e você não vai perder aquela imagem porque esqueceu de salvar. Resultado único, que ninguém além de você pode produzir.

Desvantagens: necessita de um tempo maior na criação, principalmente para trabalhos detalhistas. Não tem comando de desfazer, então precisa de muito cuidado, o que aumenta o tempo. Os recursos ficam na sua cabeça e no controle das suas mãos, e não em cliques de um software, então muito estudo até um domínio satisfatório. Requer paciência, o que muita gente não tem.



Há quem diga que os traços manuais são mais ligados a artistas mulheres. Qual sua opinião sobre essa ideia?

Nunca parei para pensar nisso. Realmente conheço muitas mulheres fazendo traços manuais, mas não acho que sejam mais ligados a elas, porque conheço muitos caras fazendo traços manuais também. Talvez tenha mais homens no mundo dos quadrinhos e do concept art e mais mulheres no mundo da ilustração e das artes plásticas, mas todos estão desenhando a mão, então para mim não muda muito. Independente do sexo, acho que o que conta mais para alguém se fixar no traço manual é a disciplina, sensibilidade e principalmente amor ao desenho.